Whatsapp Logo Quadrado Whatsapp Logo Quadrado

Notícias


Currículo por competências em Contabilidade, mudança real ou ajuste no papel?

"Um editorial publicado na Revista Contabilidade Vista & Revista discute como os cursos de Ciências Contábeis estão respondendo às novas Diretrizes Curriculares Nacionais e pergunta, de forma direta, se a adoção do currículo por competências será tratada como uma transformação efetiva do ensino ou apenas como um atendimento burocrático à Resolução CNE/CES nº 01/2024. Assinado por Alison Martins Meurer, da Universidade Federal do Paraná, e Marcelo Marchine Ferreira, da Universidade Estadual do Paraná e da Universidade Estadual de Maringá, o texto coloca coordenadores, Núcleos Docentes Estruturantes, professores e instituições diante de uma escolha concreta: reorientar de fato a formação do contador ou limitar-se a 'cumprir' a norma no papel.

O ponto de partida é a mudança central trazida pelas novas DCNs, a indução de um ensino baseado em competências como fundamento da formação contábil. Os autores lembram que a transição de um modelo centrado na transmissão de conteúdos para outro que toma as competências como eixo estruturante não acontece por decreto. A norma abre uma possibilidade, mas os efeitos práticos dependerão da forma como cada curso vai desenhar o perfil do egresso, organizar o currículo, escolher metodologias, revisar práticas avaliativas e, principalmente, mobilizar seu corpo docente para um projeto pedagógico coerente com essa escolha. Sem esse movimento, o risco é tratar a resolução apenas como mais uma exigência documental para arquivar.

Um dos eixos fortes do editorial é a defesa do currículo como 'documento vivo' dentro do Projeto Pedagógico de Curso. Inspirados em autores como Sacristán, Bernstein, Stenhouse e Apple, os editores argumentam que o currículo não se reduz à lista de disciplinas ou conteúdos. Ele expressa escolhas sobre quais conhecimentos são considerados legítimos, quais competências e valores serão priorizados, para que tipo de profissional e de sociedade o curso pretende contribuir. Se esse documento não é conhecido, apropriado e discutido por coordenadores, NDEs, professores e estudantes, ele se torna 'letra morta', útil apenas para cumprir exigências formais da avaliação externa, sem impacto real na prática de sala de aula.

Ao mesmo tempo, o texto alerta para a tentação da 'terra arrasada'. Nesse cenário, a mudança para o currículo por competências seria tratada como oportunidade para descartar tudo o que já se construiu nos cursos, como se práticas, conteúdos e processos anteriores fossem automaticamente inadequados por não nascerem sob a lógica das competências. Meurer e Ferreira defendem a posição oposta, experiências bem-sucedidas de ensino baseado em conteúdos continuam a ter valor e podem servir de alicerce para o 'novo necessário'. A chave está em reconhecer que não existe competência sem conhecimento, como destaca Perrenoud, e que a mudança não é abandonar o saber técnico, mas reorganizá-lo, mobilizá-lo e avaliá-lo em situações de aprendizagem que façam sentido para a atuação profissional do contador.

O terceiro elemento da discussão é a metáfora do 'puxadinho normativo'. Os autores usam a imagem de acréscimos improvisados em uma construção para descrever processos de reformulação curricular que se limitam a alterar nomes de disciplinas, inserir campos de 'competências' em ementas ou redistribuir cargas horárias de maneira apressada. Nesses casos, a estrutura profunda do curso permanece a mesma, com aulas centradas no professor, conteúdos fragmentados e avaliações baseadas em memorização, apenas recobertas por um vocabulário alinhado ao discurso oficial das DCNs. O resultado é o que eles chamam de 'gambiarras curriculares', situações em que se simula mudança sem toque real nas práticas de ensino e aprendizagem.

O editorial insiste que elaborar um currículo por competências não é tarefa puramente técnica. Trata-se de processo político e pedagógico que envolve relações de poder, disputas sobre qual conhecimento vale e para quem, e o que precisa ser enfrentado de forma coletiva. Coordenadores, NDEs, professores, estudantes e representantes do mercado contábil são chamados a responder perguntas incômodas: que contador queremos formar no nosso contexto, quais demandas profissionais e sociais orientam nossas escolhas, que experiências de aprendizagem são necessárias para sustentar esse perfil de egresso. 

A partir dessas questões, o currículo deixa de ser um formulário a preencher e passa a funcionar como referência de trabalho, revisão e desenvolvimento profissional docente. Na parte final, Meurer e Ferreira reforçam que o sucesso de um currículo por competências não será medido pela rapidez com que um PPC é atualizado para atender às novas DCNs, mas pela capacidade concreta de gerar situações de aprendizagem significativas, articuladas e contínuas ao longo do curso. Isso envolve colocar o currículo em circulação permanente, como objeto de estudo, debate e ajuste, e exige coragem dos envolvidos, para questionar práticas cristalizadas, conversar com os pares, divergir quando necessário e sair de zonas de conforto. Entre a 'terra arrasada' que despreza o passado e o 'puxadinho' que apenas muda rótulos, o texto convida os cursos de Ciências Contábeis a construir caminhos em que a mudança normativa se traduza em transformação pedagógica real."

Para mais informações, contate os autores

  • Alison Martins Meurer: alisonmeurer@ufpr.br
  • Marcelo Marchine Ferreira: mmarchine@gmail.com


O editorial completo, intitulado “Currículo por competências e as novas DCNs dos cursos de Ciências Contábeis: entre a terra arrasada e o puxadinho”, pode ser acessado através do link : 

As informações e opiniões manifestadas nesta página são de inteira responsabilidade dos autores, e não necessariamente refletem posições do CRCPR ou são endossadas pela entidade.

Reprodução permitida, desde que citada a fonte.